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A música que quase parou e acabou no topo

"I Run" saiu do TikTok, enfrentou a controvérsia da IA e começou 2026 como hit global

por Fabrício Lopes - 13/01/2026



A história de “I Run”, do projeto britânico Haven, é um daqueles casos raros em que uma música acaba virando o retrato do seu tempo. Tudo começou de forma simples e espontânea, como tantos hits recentes: um trecho postado no TikTok, vídeos se multiplicando, milhões de reproduções antes mesmo de a faixa chegar oficialmente às plataformas. Em poucos dias, o comentário era praticamente unânime: “solta essa música agora”. O tipo de reação que todo produtor sonha em ver.

O grande motor desse primeiro impacto estava no vocal feminino, suave e carregado de emoção, que deu à faixa um apelo imediato muito além da pista. Só que, à medida que o hype crescia, crescia também a pergunta que ninguém conseguia responder com clareza: quem estava cantando?

 

A semelhança com a voz de Jorja Smith era tão evidente que a própria artista entrou na conversa nas redes sociais e deixou claro que não era ela quem cantava. Esse simples gesto foi suficiente para mudar o tom da discussão. O que antes era apenas curiosidade virou suspeita, e a música passou a ser observada com mais atenção pela indústria.

Pouco depois, veio a confirmação por parte dos produtores: havia sido usado processamento vocal assistido por inteligência artificial. A ferramenta utilizada foi o software Suno, aplicado para transformar a própria voz masculina em um timbre feminino. Segundo eles, a intenção nunca foi imitar diretamente Jorja Smith, mas explorar novas possibilidades criativas a partir de um vocal soulful genérico. Ainda assim, naquele ponto, a percepção pública já estava formada.

 

A discussão rapidamente saiu do campo artístico e entrou no território jurídico e ético. Vieram notificações de remoção, questionamentos sobre direitos de imagem, acusações de impersonificação vocal e debates sobre o uso de catálogos protegidos no treinamento de modelos de IA. “I Run” passou a sair e voltar do ar, enquanto plataformas e entidades da indústria avaliavam o caso.

Justamente quando a faixa parecia pronta para estrear forte nos charts, ela acabou ficando de fora. O que poderia ter sido apenas um hit viral se transformou em um símbolo de um problema maior: a velocidade com que a tecnologia avança, muitas vezes muito à frente da regulação.

Foi nesse momento que veio a decisão mais importante de toda a trajetória. Em vez de insistir na versão original e prolongar a controvérsia, o Haven optou por regravar completamente a música. A nova versão passou a contar com vocais humanos, claros e devidamente creditados, agora interpretados por Kaitlin Aragon, cantora que havia chamado atenção após publicar um cover de “I Run” nas redes sociais.

Essa regravação representou uma virada de chave definitiva. As dúvidas sobre IA e deepfake ficaram para trás, a música ganhou um novo fôlego e, finalmente, pôde seguir seu caminho sem ruído.

Com o terreno limpo, “I Run” começou a crescer de verdade. A faixa se espalhou para além do TikTok, passou a circular com naturalidade entre DJs, playlists e rádios, e ganhou um impulso decisivo quando David Guetta lançou seu remix oficial. O rework transformou a música em um hino de peak time, com energia de festival e impacto de mainstage, sem perder a emoção do vocal nem a identidade melódica construída pelo Haven.

O resultado dessa soma de fatores ficou evidente na virada do ano. Aquela mesma música que quase teve sua trajetória interrompida pela polêmica começou 2026 no topo, alcançando o primeiro lugar no Top 40 Global Chart. De experimento viral com inteligência artificial a hino global de pista, “I Run” completou um arco improvável, mas emblemático.

No fim das contas, essa história não fala apenas de um hit. Ela mostra como a música eletrônica funciona hoje: nasce nas redes, cresce com a tecnologia, enfrenta os dilemas da indústria e, no final, se resolve onde sempre se resolveu. Na pista. E dessa vez, a pista respondeu em uníssono.


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