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IA na música: até onde é criação e a partir de onde vira fraude?

Deezer aperta o cerco, desmonetiza faixas e reacende um debate que já chegou aos bastidores da cena

por Fabrício Lopes - 03/02/2026



 

A discussão que parecia distante chegou de vez ao centro da indústria musical. A inteligência artificial saiu do campo da curiosidade e virou assunto sério, com impacto direto em plataformas de streaming, artistas, produtores e, claro, no dinheiro que gira em torno da música. A pergunta é simples, mas a resposta nem tanto: até onde a IA é uma ferramenta criativa e a partir de que ponto ela vira fraude?

O debate ganhou força depois que a Deezer confirmou a desmonetização em massa de músicas geradas por inteligência artificial usadas de forma fraudulenta. A plataforma revelou números preocupantes: uma grande parte das faixas criadas por IA tinha como objetivo manipular o sistema de streams, não criar arte. Isso acendeu um alerta geral. Não é só sobre tecnologia. É sobre autoria, crédito, ética e sobrevivência de quem vive de música.

Um dos principais argumentos a favor da IA é que ela não cria sozinha. Ela depende de comandos humanos, de ideias, de direcionamento. Vista assim, seria apenas mais uma ferramenta, como um sampler, um sintetizador ou um software de produção. O problema aparece quando todo o processo criativo é terceirizado para o sistema. Se a pessoa não compôs, não tocou, não cantou e apenas pediu para a IA gerar tudo, quem é o autor dessa música?

Nesse ponto, muita gente faz uma comparação direta com o ghost producing. Há décadas, grandes nomes da cena lançam faixas criadas por outras pessoas, muitas vezes sem deixar isso claro para o público. Para esse grupo, a IA não cria um novo dilema moral, apenas escancara um modelo que sempre existiu, agora acessível a qualquer um com internet e um bom prompt.

A linha que separa ferramenta de atalho é fina. Quando a ideia nasce do artista e a IA entra para ajudar a realizar uma visão criativa específica, ela funciona como apoio. Quando a IA substitui completamente o processo criativo, o papel do artista muda. Ele deixa de criar e passa apenas a operar um sistema.

Existe ainda um pano de fundo importante nessa história: a pressão por volume. Hoje, lançar pouco virou quase um erro estratégico. Algoritmos cobram constância, presença e quantidade. O resultado é um mercado inundado por músicas descartáveis, lançadas em ritmo industrial. Talvez o uso exagerado de IA não seja a causa disso tudo, mas o sintoma de uma indústria que valoriza mais quantidade do que identidade e memória musical.

A história da música mostra que toda inovação causa estranhamento antes de ser absorvida. Foi assim com drum machines, samplers, autotune e softwares de produção. A inteligência artificial parece seguir o mesmo caminho. O desafio não é proibir, mas definir regras claras. Quem assina a obra? Quem recebe? Onde termina a ferramenta e começa a terceirização criativa?

A inteligência artificial não vai desaparecer. E nem precisa. Mas também não pode virar um atalho automático que esvazia o valor da criação humana. O equilíbrio entre inovação e integridade artística é o que vai definir não só quem ganha dinheiro hoje, mas quais músicas ainda vão fazer sentido no futuro.

Assim que essa notícia foi divulgada, ela foi compartilhada no grupo de WhatsApp da Central DJ. O resultado foi imediato: opiniões divididas, mensagens longas, áudios, argumentos fortes dos dois lados. Teve quem defendesse a IA como ferramenta inevitável, teve quem enxergasse um risco real para produtores e artistas independentes, e teve quem puxasse o debate para o velho fantasma do ghost producing.

O fato é que a discussão saiu do noticiário e caiu na vida real de quem faz, toca, divulga e consome música todos os dias. E se tem uma coisa clara nesse momento é que o assunto está longe de acabar. A Central DJ segue acompanhando, debatendo e provocando essa conversa, porque o futuro da música está sendo decidido agora, faixa por faixa.

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