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Antes do pen-drive, existia Ricardo Guedes
A trajetória de um dos DJs mais técnicos da história da música eletrônica no Brasil
por Fabrício Lopes - 10/03/2026

Antes do pen-drive, existia Ricardo Guedes
por Fabrício Lopes - 10/03/2026
Ontem (09-03) foi Dia do DJ. Como já virou tradição, as redes sociais e os grupos de WhatsApp ficaram cheios de montagens, vídeos, fotos antigas e mensagens de parabéns. É bonito ver tanta gente celebrando a profissão, embora em muitos casos as postagens acabem sendo também uma forma de cada DJ celebrar a própria trajetória. Faz parte do clima das redes hoje em dia. Mas no meio de tanta publicação, de vez em quando aparece algo que realmente vale a pena parar para assistir.
Foi o que aconteceu no grupo de WhatsApp da Central DJ. Fábio Reder compartilhou um vídeo que eu já tinha visto na época em que foi lançado e que merece ser revisitado. Trata-se de uma entrevista histórica com Ricardo Guedes, produzida dentro do projeto DJ History, criado pelo Alex Hunt justamente com a ideia de registrar e preservar a história de DJs que ajudaram a construir a cena eletrônica no Brasil.
E quando a gente fala da história da cena brasileira, o nome de Ricardo Guedes aparece naturalmente.

Muito antes de controladoras, softwares e playlists digitais dominarem as cabines, Guedes já era referência quando o trabalho do DJ era feito praticamente no ouvido, no vinil e na raça. Ele pertence à geração que ajudou a transformar o DJ em protagonista da noite brasileira. Mais do que tocar música, ele ajudou a definir o que significa ser DJ: alguém capaz de sentir a pista, conduzir emoções e transformar música em experiência coletiva.
Em tempos em que muitos ídolos da música eletrônica aparecem no palco levantando as mãos e gritando frases prontas para o público, vale lembrar de figuras como Guedes. DJs que ajudaram a construir o terreno onde hoje existem clubes, programas de música eletrônica no rádio, remixes nacionais e até escolas de DJs. Se tudo isso hoje parece natural, é porque muita gente lá atrás abriu caminho, e Ricardo Guedes foi um desses nomes.

Ele começou muito cedo. Aos 17 anos frequentava a matinê da discoteca Papagaio Disco Club, em São Paulo. Antes mesmo de tocar, já era apaixonado por música e colecionava LPs comprados em lojas como o famoso Museu do Disco. Foi lá que conheceu o DJ das matinês, Tuta Aquino. Os dois ficaram amigos e Tuta acabou mostrando para ele como funcionava a mixagem. O pai de Tuta tinha mandado construir um mixer artesanal, com dois fones adaptados, algo bem improvisado para os padrões de hoje.
Guedes contava essa história com orgulho. Segundo ele, bastou ver uma vez para aprender. “Eu ouvi uma vez só e pronto, aprendi.” E completava com a autoconfiança típica de quem dominava a técnica: “Quando ensino alguém é uma vez só. Mixar é dez vezes mais fácil do que andar de bicicleta. É como virar estrela. Tem gente que consegue, tem gente que não.”
Nos anos 80, ser DJ estava longe de ser profissão glamourosa. Ele mesmo contava uma história curiosa sobre isso. Certa vez, o pai de uma namorada perguntou o que ele fazia da vida. Guedes respondeu que era disc-jóquei. O homem entendeu errado e achou que ele trabalhava com apostas em corridas de cavalo. Quando finalmente percebeu que se tratava de DJ de música, achou aquilo um absurdo. Naquela época, a profissão era vista quase como um subemprego.
Foi no final dos anos 80 que Ricardo Guedes ganhou fama tocando em clubes da zona leste de São Paulo, especialmente na lendária Toco e também na Contra-Mão. Ele descrevia aquelas noites como algo próximo de um espetáculo. A estrutura impressionava para a época. Havia projeção de Super-8, sistema de som poderoso e uma pista lotada. O grave vinha do chão, o peito tremia e a cabine ficava elevada, de frente para a pista. Lá embaixo estavam duas ou três mil pessoas dançando. Para ele, aquilo era simplesmente o paraíso.
Ricardo Guedes também teve uma trajetória marcante no rádio e ajudou a levar a cultura DJ para dentro das emissoras numa época em que a música eletrônica ainda tinha pouco espaço na programação. Muito antes de lives e sets na internet, era pelo rádio que muita gente descobria as novidades da pista.
Ao longo da carreira ele passou por emissoras importantes de São Paulo, como Jovem Pan,Nova FM e Energia 97, atuando como DJ, programador musical, produtor e também criando mixes especiais para a programação.
Uma fase bastante lembrada foi na Nova FM, onde apresentou e mixou o programa Garage 70.Para muita gente que acompanhava a cena na época, era um dos poucos momentos em que dava para ouvir dance music e house mixadas no rádio.
Ele também comandou o programa Esquentando os Pratos, cujo nome fazia uma brincadeira com o momento em que o DJ prepara a pista antes da festa realmente começar.
Além disso, Guedes teve uma atuação importante na Pool FM, onde chegou a trabalhar como coordenador, ajudando a difundir remixes e lançamentos que circulavam entre DJs e clubes.
Mais tarde, já na Energia 97, continuou ligado à cena eletrônica com programas como House Definition e Volume 97.

Numa época em que muitos DJs ainda estavam restritos às cabines das discotecas, Ricardo Guedes ajudou a mostrar que o rádio também podia ser uma extensão da pista de dança. Foi ali que muita gente teve o primeiro contato com a cultura DJ no Brasil.
Quem conviveu com Guedes lembra de uma personalidade forte, direta e sem muita diplomacia. Ele não tinha problema em falar o que pensava sobre a cena. Em uma entrevista famosa comentou que muitos DJs novos chegaram com tudo pronto. “Esses meninos chegaram à cena com tudo mastigadinho.” Em outro momento soltou uma frase que resume bem o espírito dele: “Vou falar uma coisa que parece pretensiosa… eu não tenho problema com a cena. Eu sou a cena.”
Pode soar arrogante à primeira vista, mas também é o retrato de quem estava ali desde o começo, abrindo caminho quando a cultura DJ ainda estava longe de ter o reconhecimento que tem hoje.
Quem viu Ricardo Guedes tocar lembra de uma coisa muito simples: ele estava completamente entregue ao que fazia. Era na cabine, diante de uma pista cheia, que ele parecia mais feliz. Talvez seja assim que ele mereça ser lembrado. Como um DJ que ajudou a construir a história da música eletrônica no Brasil fazendo exatamente aquilo que mais amava: tocar música para uma pista cheia.
Para quem quiser entender melhor a importância de Ricardo Guedes e ouvir essas histórias diretamente da fonte, vale muito assistir à entrevista completa do projeto DJ History, que registra um pedaço importante da memória da cultura DJ no Brasil.
Ricardo Guedes faleceu em 14 de junho de 2010, aos 46 anos, vítima de um enfarte seguido de AVC, deixando quase três décadas de contribuição para a música eletrônica brasileira.
Entrevista completa do projeto DJ History:
*Fonte adicional Music Non Stop


