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Sirât: o filme que mostra que dançar também é uma forma de procurar sentido

Entre raves, desertos e reflexões sobre a vida, a música eletrônica vira o fio condutor de uma experiência diferente de tudo

por Fabrício Lopes - 10/03/2026



Dançar também pode ser uma forma de procurar sentido.

Quem já entrou numa pista de dança e se deixou levar pela batida sabe bem do que estamos falando. A música sobe, o corpo responde, e por algumas horas parece que tudo faz sentido — mesmo que o mundo lá fora esteja completamente bagunçado.

É justamente essa ideia que inspira Sirât, filme espanhol que chegou aos cinemas e representa a Espanha na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional.

O título já diz muito sobre o clima da história. Sirât, na tradição islâmica, é a ponte estreitíssima que todos precisam atravessar no Dia do Juízo Final para chegar ao paraíso. Uma travessia delicada, perigosa e inevitável. Metáfora perfeita para a jornada que o filme propõe.

A história começa quando Luis, interpretado por Sergi López, viaja ao sul do Marrocos com o filho Esteban em busca da filha desaparecida. A última pista leva até uma rave no meio do deserto.

Sem conseguir respostas, pai e filho acabam seguindo um grupo de ravers rumo à fronteira com a Mauritânia, onde uma festa lendária estaria prestes a acontecer. No caminho, eles entram em contato com um universo onde muita gente vive praticamente em movimento, pulando de rave em rave, como se o mundo real não oferecesse muita coisa interessante.

E é aí que o filme mergulha de cabeça naquilo que faz da cultura eletrônica algo tão único.

Em Sirât, as raves aparecem quase como rituais contemporâneos. Multidões dançando no meio do deserto, guiadas por batidas hipnóticas, como se estivessem participando de uma cerimônia coletiva. A música eletrônica deixa de ser apenas trilha sonora e vira parte da narrativa.

A trilha do filme, inclusive, foi pensada em três momentos diferentes. Primeiro vem uma fase mais tribal e catártica, com batidas fortes e pulsantes. Depois o clima fica mais introspectivo e melancólico. E, por fim, a história entra em uma dimensão mais espiritual, levando os personagens a refletirem sobre a fragilidade da vida e aquilo que realmente importa.

Para o diretor Óliver Laxe, que escreveu o roteiro ao lado de Santiago Fillol, a música eletrônica tem algo especial quando o assunto é criar atmosfera no cinema.

Diferente da música clássica ou sacra, que normalmente acompanha momentos mais transcendentais nas telas, a eletrônica trabalha com sons que parecem surgir do nada. Não há um instrumento visível, apenas camadas sonoras que criam uma sensação de mistério.

E isso ajuda a transformar o filme em algo mais sensorial do que narrativo.

Outro detalhe curioso é que muitos dos personagens não são atores profissionais. O diretor decidiu escalar ravers de verdade, gente que vive esse universo e que ajudou a dar autenticidade à história.

Sirât acabou se destacando também tecnicamente. O filme recebeu seis prêmios Goya — o Oscar espanhol — incluindo melhor música original e melhor som, além de representar a Espanha na corrida pelo Oscar.

Mas, no fundo, o que torna o filme especial é a forma como ele olha para a cultura rave.

Longe do clichê da festa vazia ou escapista, Sirât mostra a pista como um espaço de encontro humano, onde pessoas se conectam, compartilham emoções e tentam lidar com as mesmas dúvidas que todo mundo carrega.

No fim das contas, o filme deixa uma pergunta no ar.

Talvez, em um mundo cada vez mais confuso, dançar ainda seja uma das formas mais sinceras de procurar algum sentido no caos.

*Colaboração Levi Nicomedes
Fonte


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