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Flashdance: quando o Deep Dish decidiu não seguir regras
Antes do streaming, bastava um DJ tocar e o resto acontecia
por Fabrício Lopes - 29/04/2026

Flashdance: quando o Deep Dish decidiu não seguir regras
por Fabrício Lopes - 29/04/2026
Existe um momento na música em que tudo se encaixa — ideia, atitude e timing — e foi exatamente assim que nasceu “Flashdance”, um dos maiores hinos da house music dos anos 2000, assinado pelo Deep Dish.
Por trás desse clássico estão Dubfire e Sharam, dois artistas com histórias bem diferentes, mas unidos por uma mesma inquietação criativa. A trajetória começa longe das pistas, no Irã, onde Dubfire cresceu durante a revolução, em um período em que a música ocidental era proibida. O contato com o som vinha de forma limitada, através de fitas cassete, transmissões de rádio como BBC e Voice of America e materiais que circulavam quase de forma clandestina. Foi nesse contexto que ele teve contato com o filme Flashdance, assistindo repetidas vezes e absorvendo aquela trilha que mais tarde ficaria gravada na memória como uma semente criativa.

Anos depois, já nos Estados Unidos, o cenário mudou completamente. O acesso à música era praticamente infinito e o interesse pela mixagem começou a ganhar forma dentro de lojas de discos, observando mixers e toca-discos e entendendo como as músicas podiam se conectar. Foi ali que ele encontrou seu caminho. Em paralelo, Sharam já rodava como DJ pela cena de Washington DC, e o encontro entre os dois aconteceu de forma natural, através de um amigo em comum. No começo não havia certeza de que a parceria funcionaria, mas ela foi se construindo aos poucos, com respeito e principalmente com uma visão em comum de quebrar padrões.
Um dos momentos mais emblemáticos desse início aconteceu quando Sharam foi convidado para tocar em uma das festas. Logo no primeiro disco, a pista esvaziou completamente. Em vez de enxergar aquilo como um problema, Dubfire viu personalidade, confiança e coragem. Era exatamente esse tipo de atitude que os dois queriam levar para a música. A partir dali, ficou claro que não estavam interessados em seguir fórmulas prontas, mas sim em criar algo próprio.
Nos anos 90, o Deep Dish começou a desenvolver uma identidade sonora forte, absorvendo influências da house de Nova York, Chicago e Detroit, ao mesmo tempo em que dialogava com a cena europeia. O objetivo era encontrar um som único, que não fosse uma cópia do que já existia. Esse processo começou a ganhar destaque com remixes importantes, até que uma ideia antiga voltou à tona e mudou tudo.
Sharam sempre acreditou que a música do filme Flashdance poderia ganhar uma nova vida nas pistas. No início, Dubfire não via tanto potencial, mas resolveu testar. A resposta veio imediata. A pista reagiu de forma intensa e aquilo foi o sinal de que estavam diante de algo especial. A produção foi praticamente refeita do zero, com novos elementos, guitarras reconstruídas, arranjos redesenhados e um cuidado grande para manter a essência, mas com uma pegada totalmente atualizada. A escolha da vocalista Anousheh Khalili trouxe o toque final, adicionando emoção e identidade à faixa.
Naquela época, tudo girava em torno do vinil. Se a música não estivesse prensada, ela simplesmente não existia no circuito. Foi então que o Deep Dish decidiu levar algumas cópias teste para Miami, durante a Winter Music Conference, um dos principais pontos de encontro da cena eletrônica mundial. Foram cerca de 50 discos entregues diretamente nas mãos de DJs. O que aconteceu ali virou história. Praticamente todos que recebiam o disco colocavam para tocar na hora. A reação era imediata e intensa, e a música começou a ganhar força antes mesmo de um lançamento oficial.
Um dos grandes responsáveis por impulsionar a faixa foi Pete Tong, que recebeu uma cópia e passou a tocar o som constantemente. Em pouco tempo, “Flashdance” já estava dominando pistas em Ibiza e se espalhando pelo mundo. A faixa quase alcançou o topo das paradas, ficando atrás de um sucesso gigantesco do Eric Prydz, mas isso pouco importava naquele momento. O impacto cultural já estava consolidado.

O grande diferencial da música sempre foi aquele riff de guitarra inconfundível. É o tipo de som que não pede licença, entra e transforma completamente a energia da pista. Décadas depois, continua funcionando da mesma forma, atravessando gerações e mantendo a mesma força.
Mesmo com todo o sucesso, a dupla seguiu caminhos separados por um período, buscando explorar ideias individuais. Diferenças criativas fazem parte de qualquer parceria intensa, e com o Deep Dish não foi diferente. O mais interessante é que o tempo acabou fortalecendo a relação, permitindo que cada um evoluísse como artista e depois retornasse com uma visão ainda mais madura. O reencontro trouxe novas versões, releituras e a parceria com a Armada Music, que ajudou a colocar novamente o catálogo da dupla em evidência no streaming.
“Flashdance” se tornou muito mais do que uma música. Virou um marco, um ponto de virada, um daqueles momentos raros em que uma ideia fora do padrão encontra o momento certo para explodir. É a prova de que inovação não vem de seguir tendências, mas de confiar na própria visão e ter coragem de ir contra o fluxo. No fim das contas, tudo começou com uma lembrança de infância, uma ideia persistente e algumas cópias de vinil entregues na mão certa.
Matéria baseada na entrevista de Deep Dish para a DJ Mag.



