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O Paradoxo de Zedd

A difícil missão de agradar quem quer novidade e nostalgia ao mesmo tempo

por Fabrício Lopes - 02/06/2026



Se tem uma coisa que aprendi ao longo desses anos no rádio é que todo mundo tem uma solução simples para um problema complexo.

Volta e meia aparece alguém dizendo que a programação da emissora está repetitiva, que deveríamos tocar mais novidades ou que determinada música já cansou. Mas basta tirar um dos grandes sucessos da programação para o telefone tocar, a mensagem chegar no WhatsApp ou alguém reclamar nas redes sociais perguntando: "Ué, por que vocês não tocaram aquela música?"

É um fenômeno curioso. As pessoas dizem que querem novidade, mas se sentem confortáveis com aquilo que já conhecem.

E foi exatamente esse debate que voltou à tona recentemente envolvendo Zedd.

Tudo começou quando um comentário nas redes sociais viralizou acusando o DJ e produtor alemão de estar apresentando praticamente o mesmo show há quase uma década. A crítica rapidamente ganhou força entre fãs e criadores de conteúdo especializados em música eletrônica.

A resposta de Zedd foi tão simples quanto provocativa:

"Desculpe por ter tantos hits."

E, sinceramente, eu entendo perfeitamente o que ele quis dizer.

Porque existe uma diferença enorme entre enxergar um setlist no papel e entender o comportamento real do público.

Quem trabalha com rádio aprende isso rapidamente. Você pode passar semanas pesquisando novidades, procurando artistas emergentes e preparando conteúdos diferentes. Mas quando chega o momento decisivo, o que faz a maioria das pessoas aumentar o volume do rádio são justamente as músicas que elas já conhecem.

A ciência explica isso.

Pesquisadores da área de psicologia musical estudam há décadas um fenômeno chamado Mere Exposure Effect, ou "efeito da mera exposição". Em resumo, nosso cérebro tende a gostar mais de algo simplesmente porque já teve contato anterior com aquilo.

Quanto mais familiar uma música se torna, mais confortável ela parece. O cérebro gasta menos energia para processá-la e, como recompensa, gera sensações positivas.

É por isso que tantas vezes ouvimos uma música nova e pensamos: "não gostei". Duas semanas depois estamos cantando o refrão dentro do carro.

Não foi a música que mudou. Foi o nosso cérebro que passou a reconhecê-la.

Mas existe um detalhe interessante.

A mesma ciência mostra que essa curva tem um limite. A familiaridade gera prazer até determinado ponto. Depois disso surge a saturação.

É exatamente nessa linha tênue que vivem os programadores de rádio, os DJs de festivais e os produtores musicais.

Pouca repetição gera estranhamento.

Muita repetição gera cansaço.

O desafio é encontrar o equilíbrio.

E imagino que seja justamente isso que está acontecendo com Zedd.

Para quem vai vê-lo pela primeira vez em um festival, ouvir Clarity, Beautiful Now, Stay The Night ou The Middle é quase obrigatório. Seria como ir a um show do Queen e não ouvir We Will Rock You. Ou assistir a uma apresentação de David Guetta sem Titanium.

Mas existe um grupo específico que enxerga a situação de outra forma.

São os superfãs. Aqueles que acompanham cada live, cada transmissão, cada festival e cada vídeo publicado no YouTube.

Para essas pessoas, a repetição fica muito mais evidente. O que para um espectador comum é uma experiência única, para esse fã dedicado pode parecer uma reprise.

E aí nasce a crítica.

Só que existe outro fator raramente mencionado.

A maioria dos grandes festivais não é um ambiente ideal para experimentação. Quando um artista sobe ao palco principal do Tomorrowland, do Ultra ou do EDC, ele tem pouco tempo para conquistar uma multidão formada por pessoas de dezenas de países diferentes.

Nesse cenário, os hits funcionam como uma linguagem universal. São a maneira mais rápida de criar conexão emocional.

Por isso artistas como Zedd, Martin Garrix, Alesso e tantos outros acabam recorrendo frequentemente aos seus maiores sucessos. Não necessariamente por falta de criatividade, mas porque eles sabem exatamente o que funciona.

Isso significa que a crítica é injusta?

Não.

Na verdade, ela levanta uma discussão importante.

Até que ponto um artista deve entregar aquilo que o público espera? E em que momento ele precisa desafiar o próprio público?

Alguns encontraram soluções interessantes. Porter Robinson cria formatos diferentes para cada turnê. Deadmau5 utiliza o projeto Testpilot para explorar sonoridades completamente distintas. Oliver Heldens criou o HI-LO para mergulhar no techno. Justice e Chemical Brothers mantêm uma separação clara entre seus shows ao vivo e seus DJ sets.

Talvez Zedd possa seguir por caminhos semelhantes.

Mas também existe a possibilidade de que ele simplesmente esteja vivendo o mesmo dilema que enfrentamos diariamente no rádio.

Afinal, depois de tantos anos trabalhando com audiência, aprendi uma verdade simples:

As pessoas adoram reclamar da repetição.

Mas quase sempre é a repetição dos sucessos que as faz voltar.

No fundo, todo mundo pede novidade. Mas quando as primeiras notas daquele clássico começam a tocar, ninguém reclama. A pista lota, o celular sobe e todo mundo canta junto como se fosse a primeira vez.


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