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A cabine do DJ já foi mais oficina mecânica do que palco
O verdadeiro espetáculo era conseguir tocar cinco horas sem derrubar um toca-discos
por Fabrício Lopes - 07/07/2026

A cabine do DJ já foi mais oficina mecânica do que palco
por Fabrício Lopes - 07/07/2026
Eu comecei a me apaixonar por esse universo no final dos anos 80.
Naquela época, eu achava que cabine de DJ era uma espécie de nave espacial. Afinal, tinha botão pra tudo, luz piscando, cabos saindo de todos os lados e um sujeito lá dentro mexendo em tudo aquilo com uma tranquilidade que desafiava qualquer explicação.
Hoje eu sei que aquilo estava muito mais para uma oficina mecânica.
Ou pior...
Parecia que um eletricista, um marceneiro e um montador de palco do Rock in Rio resolveram dividir o mesmo cômodo.
Hoje a gente vê DJs tocando em palcos gigantescos. Tem LED de cinquenta metros, fogo, laser, drone, pulseira piscando, telão em 8K...
Nos anos 80 e 90, o maior efeito especial da cabine era conseguir encontrar a faixa certa sem apagar a luz da boate.
E não era fácil.
As cabines antigas pareciam ter sido projetadas por alguém que odiava ergonomia.
Era toca-discos de um lado.
Mixer do outro.
Caixa de vinil embaixo.
Outra caixa de vinil em cima.
Cabos por todos os cantos.
E um espacinho reservado exclusivamente para o DJ... mais ou menos do tamanho de uma vaga de motocicleta.
Eu sempre tive a impressão de que aquelas cabines encolhiam durante a noite.
Quanto mais a festa lotava, menor ela ficava.
E havia uma lei universal.
Nunca existia lugar para apoiar um copo d'água.
Mas, misteriosamente, sempre apareciam vinte cabos que ninguém sabia para que serviam.
Aliás, eu tenho certeza de que existe um cabo instalado em alguma cabine desde 1987 que até hoje ninguém descobriu a função. Todo mundo tem medo de desligar porque vai que era ele que fazia a música funcionar.
Outra coisa curiosa era o tamanho dos mixers.
Os mixers antigos não eram equipamentos.
Eram imóveis.
Você não comprava um mixer.
Você financiava.
Alguns tinham tanto botão que dava a impressão de controlar também a iluminação pública da cidade.
E os toca-discos?
Cada um apontava para um lado diferente.
Parecia que quem montava a cabine dizia:
"Vamos colocar esse aqui na diagonal... porque sim."
Hoje tudo cabe num pendrive.
Naquela época, para tocar quatro horas, parecia que o DJ estava de mudança.
Era caixa de disco.
Mais caixa de disco.
Maleta.
Case.
Adaptador.
Agulha reserva.
Escovinha.
Fone.
Outro fone porque o primeiro sempre resolvia falhar na melhor hora.
No fim da noite, o DJ não precisava de academia.
Bastava guardar o equipamento.
Mas sabe o que eu acho mais engraçado?
Naquela época o DJ fazia de tudo para ficar escondido.
Hoje ele sobe num palco de vinte metros de largura.
Antes a cabine ficava num canto escuro da boate.
Agora ela parece cobertura de luxo.
Tem LED embaixo.
LED em cima.
LED atrás.
Daqui a pouco vão colocar ar-condicionado digital só para o pendrive não passar calor.
E, sinceramente?
Eu adoro essa evolução.
Mas sempre que vejo uma foto de uma cabine antiga, cheia de vinis, cabos e equipamentos empilhados, eu dou risada.
Porque percebo que o lugar mais importante da festa nunca foi bonito.
Nunca foi espaçoso.
Nunca foi organizado.
Era um caos absoluto.
Só que era o nosso caos.



