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Sem fogos, com a mesma magia: por que o Tomorrowland segue conquistando o mundo

Fãs de vários países revelam quanto investem e por que sempre voltam ao festival belga

por Fabrício Lopes - 20/07/2026



Quem acompanhou o primeiro fim de semana do Tomorrowland 2026 percebeu uma diferença logo nos grandes shows. Pela primeira vez em muitos anos, a tradicional queima de fogos ficou de fora da programação. As autoridades belgas proibiram o uso de efeitos pirotécnicos por causa da forte estiagem e do alto risco de incêndios na região. Mesmo sem um dos símbolos do festival, o Tomorrowland mostrou que sua maior atração nunca foram os fogos, mas sim as pessoas que fazem parte dessa história.

E, embora o primeiro fim de semana tenha chegado ao fim, o festival ainda volta a abrir seus portões entre os dias 24 e 26 de julho, quando milhares de visitantes de todo o mundo retornarão a Boom para mais três dias de música e celebração.

Durante o primeiro fim de semana da edição de 2026, visitantes de diversos países contaram por que o Tomorrowland se tornou muito mais do que um festival de música eletrônica.

O irlandês Dermot, de 38 anos, calcula que já gastou entre 30 mil e 40 mil euros ao longo de quase vinte edições que frequentou. Entre ingressos, viagens e hospedagem, ele brinca que o Tomorrowland deveria trazer um aviso na hora da compra dos ingressos.

"Deveria aparecer uma mensagem dizendo: cuidado, risco de virar uma seita", brinca. "O Tomorrowland esvazia completamente a sua conta bancária... e mesmo assim vale cada centavo."

Segundo ele, muitos festivais tentam competir com o Tomorrowland, mas poucos chegam perto da combinação de cenografia, música, organização e atmosfera criada na Bélgica.

As histórias emocionantes também chamam atenção. A canadense Marie-Antonette, de 42 anos, quase perdeu a vida em um grave acidente de trânsito e chegou a ficar temporariamente sem conseguir andar. Durante a recuperação, fez uma promessa: se voltasse a caminhar, realizaria um sonho antigo e pisaria no Tomorrowland.

Ela conseguiu cumprir a promessa em 2025 e voltou novamente este ano.

Viajando sozinha, conta que nunca se sentiu isolada. Pelo contrário. Segundo ela, o espírito de comunidade vivido no festival supera qualquer expectativa criada pelos milhares de vídeos publicados nas redes sociais.

Para conseguir retornar, Marie-Antonette afirma que trabalha em dois empregos e economiza durante todo o ano. Ela também conheceu pessoas que chegaram a fazer empréstimos para bancar a viagem até a Bélgica.

A vietnamita Céline, que participou do festival pela quinta vez, descreve o Tomorrowland como uma verdadeira terapia anual.

Ela conta que trabalha como estilista de vestidos de noiva e confeiteira para conseguir realizar o sonho de voltar todos os anos. Nesta edição, pagou cerca de 900 euros por um ingresso adquirido na revenda, quase três vezes mais que o valor oficial.

Para ela, o maior patrimônio do festival não são os palcos, mas as amizades. Em 2025 conheceu dois colombianos com quem mantém contato até hoje e promete compartilhar cada momento da edição deste ano por chamadas de vídeo.

Já o brasileiro João, que nasceu no Rio de Janeiro e hoje vive na Suíça, destacou o caráter internacional do evento. Segundo ele, participar do Tomorrowland Bélgica representa um investimento entre 3.500 e 4.000 euros, um valor praticamente inacessível para grande parte dos brasileiros.

Apesar de existir uma edição brasileira do festival, João acredita que a experiência na Bélgica é diferente justamente por reunir pessoas de praticamente todos os países do mundo.

Nem todos, porém, economizam na experiência. Os amigos indianos Ankush, de 38 anos, e Shriram, de 39, viajaram da Índia para a Bélgica e decidiram viver o Tomorrowland da forma mais exclusiva possível. Cada um desembolsou cerca de 5 mil euros por um pacote de luxo que incluía hotel, transporte privado, áreas VIP e uma mesa exclusiva de frente para a Mainstage.

O pacote oferecia entrada exclusiva, bares reservados, banheiros sem filas, massagens, jacuzzi e até crédito para consumo dentro do festival. Apesar de toda essa estrutura, os dois chegaram a uma conclusão curiosa.

"A verdadeira festa acontece lá embaixo", resumiu Shriram. "Na área VIP estão as pessoas aproveitando o conforto. Mas a energia de verdade está no meio do público."

Ankush concorda. Segundo ele, quem procura comodidade vai adorar a experiência VIP. Mas quem quer sentir a essência do Tomorrowland deve estar no meio da multidão.

O momento mais marcante da viagem também não aconteceu na área exclusiva. Foi durante o show de David Guetta.

"Escuto David Guetta desde 2013. Naquela época eu tinha o sonho, mas não tinha dinheiro para vir. Então trabalhei duro durante anos com um único objetivo: viver o Tomorrowland."

Quando finalmente conseguiu realizar esse sonho, a emoção foi enorme.

"Estávamos na frente da Mainstage e parecia tudo surreal. Eu disse ao meu amigo: se existe um céu, deve ser exatamente assim."

Talvez seja exatamente esse o segredo do Tomorrowland. Mais do que os grandes DJs, os efeitos especiais ou os palcos gigantescos, o festival se transformou em um ponto de encontro global para pessoas que compartilham a mesma paixão pela música eletrônica.

Para muitos, a experiência dura apenas alguns dias, mas as amizades, as lembranças e a vontade de voltar permanecem por muito mais tempo. Não é por acaso que tantos visitantes economizam durante anos para retornar a Boom. Como resumiu um dos entrevistados: "Enquanto eu confiar no Tomorrowland, eles podem continuar levando todo o meu dinheiro."


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