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DJ Meme celebra 50 anos de carreira

Produtor relembra remixes históricos e defende a arte de ler a pista

por Fabrício Lopes - 27/07/2026



Poucos artistas podem dizer que acompanharam a evolução da cultura DJ desde o nascimento da disco music até a era do streaming. DJ Meme, nome artístico de Marcello Mansur, é um desses casos raros. Em 2026, ele comemora 50 anos de carreira, consolidado como um dos maiores produtores, remixers e DJs brasileiros de todos os tempos. Sua trajetória influenciou gerações e levou o nome do Brasil aos principais palcos e gravadoras do mundo.

Em sua participação no podcast Zero Gravity Talks, Meme relembrou momentos marcantes da carreira e compartilhou uma visão sobre a profissão que vai na contramão das tendências atuais: para ele, um bom DJ não depende de playlists prontas, mas da capacidade de ler a pista e construir uma história em tempo real.

"Eu me preparo há 50 anos"

Questionado sobre a preparação de seus sets, Meme revelou que raramente monta uma sequência de músicas antes de tocar. Segundo ele, sua preparação aconteceu ao longo de cinco décadas ouvindo música, pesquisando repertório e entendendo o comportamento do público.

A filosofia é simples: cada pista é diferente. O clima da festa, o horário, a energia das pessoas e até detalhes aparentemente pequenos mudam completamente a direção de um set. Para ele, a grande arte do DJ continua sendo surpreender, algo que muitas apresentações excessivamente programadas acabaram deixando de lado.

Muito antes dos festivais

Hoje é comum imaginar DJs viajando pelo mundo, fazendo turnês internacionais e sendo tratados como estrelas. Mas, quando Meme começou, em 1976, aos 11 anos, essa realidade simplesmente não existia.

Na época, os DJs eram residentes de clubes e bailes, contratados praticamente como funcionários fixos. Foi nesse cenário que ele desenvolveu sua técnica, tocando tanto em casas da Zona Sul carioca quanto nos tradicionais bailes da Zona Norte.

Essa convivência entre disco music, soul, funk americano e black music moldou uma característica que permanece até hoje em seus sets: a capacidade de transitar por estilos diferentes sem perder a identidade.

O pioneiro dos remixes brasileiros

Antes mesmo da internet, quando editar uma música significava literalmente cortar e colar fitas magnéticas, Meme já criava versões estendidas para rádios e pistas de dança.

Seu trabalho em emissoras como a Rádio Cidade e a RPC FM, por meio de programas históricos de mixagem, chamou a atenção das gravadoras. Logo ele passou a produzir alguns dos primeiros remixes profissionais feitos no Brasil, ajudando a consolidar um mercado que praticamente não existia no país.

Ao longo da carreira, ultrapassou a marca de 150 remixes oficiais, acumulando 23 discos de ouro, 15 de platina e 3 de diamante, números raríssimos para um DJ brasileiro.

A história por trás de Shakira

Um dos episódios mais conhecidos da carreira aconteceu em 1996. Na época, uma jovem cantora colombiana chamada Shakira ainda era praticamente desconhecida fora da América Latina. A Sony Music procurou Meme para remixar Estoy Aquí e Un Poco de Amor.

O produtor decidiu seguir um caminho diferente do esperado. Em vez de apenas adaptar a música para as rádios, criou uma versão fortemente inspirada na house music, alterando a estrutura da faixa, acrescentando novos grooves de piano, reorganizando os vocais e criando o famoso trecho repetitivo do refrão que marcou a versão remix.

O resultado foi um enorme sucesso internacional. Segundo a Billboard, aquele remix foi um dos principais responsáveis por impulsionar o primeiro grande sucesso mundial de Shakira. A versão remix acabou ficando mais conhecida no Brasil do que a gravação original.

Da música brasileira para o mundo

Depois do sucesso internacional, as portas se abriram rapidamente. Vieram remixes para artistas como Mariah Carey, Gloria Estefan, Toni Braxton, Dido, Ricky Martin, Bee Gees, New Order e Pet Shop Boys, entre muitos outros.

Outro momento histórico aconteceu quando Yoko Ono o convidou para remixar Give Peace a Chance, de John Lennon. A produção alcançou o primeiro lugar da parada Hot Dance Club Play da Billboard americana, colocando um brasileiro no topo de uma das principais listas da música eletrônica mundial.

A entrada para a realeza da house music

Entre todas as conquistas, uma das que mais orgulham Meme foi o convite de Frankie Knuckles, considerado o pai da house music, para integrar a lendária Def Mix.

A agência reunia alguns dos maiores nomes da cena mundial, como David Morales, Hector Romero e o próprio Knuckles. Ser escolhido para integrar esse grupo significava receber o reconhecimento da elite internacional da house music.

Em entrevistas, Meme costuma dizer que fazer parte da Def Mix foi como entrar para a realeza da house music. A experiência o levou a tocar em clubes e festivais na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia.

O resgate da música brasileira

Mesmo com o reconhecimento internacional, Meme nunca deixou de olhar para a música brasileira. Durante a pandemia, encontrou fitas DAT e gravações originais de clássicos nacionais, dando origem ao projeto Classic Reboots, desenvolvido em parceria com a Universal Music.

A proposta era recriar versões estendidas utilizando as pistas originais gravadas décadas atrás, preservando a sonoridade analógica e acrescentando recursos modernos de produção. Entre os trabalhos estão novas versões de sucessos como Fullgás, de Marina Lima.

Um artista que continua produzindo

Cinquenta anos depois do primeiro contato com uma mesa de som, DJ Meme continua ativo. Faixas como Saudade, produzida ao lado do pianista David Feldman, chegaram ao topo das paradas da Tracksource e do Beatport, mostrando que ainda existe espaço para produções sofisticadas, musicais e carregadas de emoção na house music contemporânea.

Ao mesmo tempo, o produtor dedica parte do tempo a mentorias, palestras e entrevistas, compartilhando conhecimento com novos DJs e produtores. Sua principal mensagem permanece simples: "Sucesso não é chegar ao topo. Sucesso é conseguir permanecer lá."

Cinco décadas depois do primeiro disco colocado em uma vitrola, DJ Meme segue sendo uma das maiores referências da música eletrônica brasileira: um artista que ajudou a construir o passado, continua relevante no presente e inspira o futuro da cultura DJ.


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