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A terapeuta que chegou às pistas com ajuda da IA

Quem é Imael Angel e como nasceu a ideia que virou "Movin' To The Sun", hit de HUGEL com Ultra Naté

por Fabrício Lopes - 30/08/2026



Imagine uma terapeuta de Reiki, sem uma carreira conhecida dentro da indústria fonográfica, experimentando ferramentas de inteligência artificial para criar música por diversão.

Agora imagine que uma dessas ideias chega até um dos DJs mais populares da house music mundial, ganha uma nova produção, recebe a voz de uma lenda das pistas dos anos 90 e acaba tocando em clubes, festivais e rádios ao redor do planeta.

É praticamente essa a história que está sendo contada sobre Imael Angel e “Movin’ To The Sun”.

Só que, quando a gente começa a investigar, ela fica ainda mais interessante.

PRIMEIRO: IMAEL ANGEL EXISTE — E ELA REALMENTE É TERAPEUTA

Por trás do nome Imael Angel está Bernadett Gango, húngara residente na Inglaterra.

E a parte que parece ter sido inventada para deixar a história mais interessante é justamente uma das mais fáceis de comprovar.

Bernadett aparece em um diretório britânico de terapeutas oferecendo sessões de Usui Reiki e Angelic Reiki. Entre suas qualificações estão Reiki Master/Teacher, Angel Reiki Therapist e Crystal Magic Healer. O mesmo cadastro informa também formação como enfermeira clínica especializada em crianças.

O próprio universo de Imael Angel já existia antes da música.

Seu site e seus perfis misturam conceitos como energia, cura, transformação, espiritualidade e Reiki. Hoje, o Linktree oficial de Imael Angel reúne tanto músicas quanto sessões e cursos de Reiki.

Até aí, estamos bem longe de Ibiza.

AÍ ENTRA A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A narrativa que começou a circular em 2026 diz que Bernadett passou a utilizar ferramentas de inteligência artificial como Suno e Udio para experimentar criações musicais.

Uma dessas experiências teria resultado em uma faixa chamada:

“I’m Moving To The Sun”.

Ela não era uma produtora de música eletrônica tradicional sentada diante de uma DAW, programando bateria, sintetizadores e automações durante horas.

A ideia teria nascido dentro desse novo processo híbrido em que uma pessoa fornece conceitos, letras, referências ou comandos e um sistema generativo transforma aquilo em música.

É daí que vem uma das frases mais repetidas sobre o caso: “uma terapeuta de Reiki fez uma música com IA e ela virou hit mundial”.

Essa narrativa é reproduzida por pessoas ligadas à indústria musical e publicações especializadas, embora ainda existam lacunas sobre exatamente quais partes da primeira gravação foram geradas por IA e quanto houve de edição humana posteriormente.

E essa ressalva é importante.

Porque uma boa história de internet nem sempre é uma documentação completa do processo.

MAS EXISTE UMA MÚSICA ANTES DE HUGEL

Esse ponto é objetivo.

O projeto Imael Angel já publicava músicas desde o final de março de 2026.

E em 14 de abril de 2026 foi lançada oficialmente uma faixa chamada “I’M MOVING TO THE SUN”.

Nos registros dessa gravação, Imael Angel aparece como intérprete, enquanto Bernadett Gango recebe os créditos de composição e produção.

Ou seja: mais de um mês antes da versão conhecida mundialmente, a ideia já existia.

Depois a história muda completamente de escala.

HUGEL ENTRA NA HISTÓRIA

Em algum momento, “I’m Moving To The Sun” chegou até o universo do produtor francês HUGEL.

Em vez de simplesmente lançar aquela gravação, o material foi reconstruído.

A nova produção ganhou programação, instrumentos, produção adicional e uma voz humana extremamente simbólica:

Ultra Naté.

Sim, a cantora de “Free”, clássico absoluto da house music dos anos 90.

Em 22 de maio de 2026, foi lançada oficialmente “Movin’ To The Sun”, creditada a HUGEL, Imael Angel e Ultra Naté.

Os créditos da gravação final ajudam a mostrar como o processo se transformou.

HUGEL aparece como produtor, compositor e programador. A dupla Late Nine também participa da produção. Ultra Naté aparece nos vocais.

E lá está novamente:

Bernadett Gango — compositora e letrista.

A terapeuta de Reiki agora estava oficialmente nos créditos de uma produção internacional.

ENTÃO HUGEL PEGOU UMA MÚSICA DE IA E TRANSFORMOU EM HIT?

Basicamente, essa é a narrativa.

Mas é bom evitar uma simplificação.

A versão de HUGEL não é simplesmente o arquivo produzido por uma inteligência artificial colocado nas plataformas.

Existe um trabalho humano evidente de reconstrução da música.

Produção.

Arranjo.

Programação.

Composição adicional.

Gravação de voz.

Mixagem.

Masterização.

A versão comercial tem inclusive outros compositores creditados além de Bernadett: Florent Hugel, Loris Cimino e Maximilian Riehl.

Portanto, talvez seja mais correto dizer que uma ideia musical surgida dentro de um processo envolvendo inteligência artificial acabou servindo como ponto de partida para uma produção humana profissional.

E isso muda bastante a discussão.

E QUEM, AFINAL, É IMAEL ANGEL?

Essa talvez seja a parte mais curiosa.

Imael Angel parece funcionar ao mesmo tempo como nome artístico, projeto musical e identidade ligada ao trabalho espiritual de Bernadett Gango.

Documentos oficiais ajudam a fazer essa conexão.

No Reino Unido existe hoje a empresa Imael Angel Records Ltd., e Bernadett Braikoffne Gango aparece como diretora e uma das pessoas com controle significativo da companhia.

Outro documento do próprio site Imael Angel, anterior ao sucesso da música, já identifica Bernadett Gangó como responsável pelo site e pelos serviços oferecidos pela marca.

Portanto, não parece simplesmente um personagem virtual inventado posteriormente pela gravadora.

O projeto já existia.

O DETALHE QUE DEIXA A HISTÓRIA AINDA MAIS ESTRANHA

Uma investigação publicada em agosto de 2026 encontrou diferentes versões de “I’m Moving To The Sun” circulando na internet.

Uma delas chegou a ser descrita como a “Original AI Version”.

Além disso, algumas gravações desapareceram de plataformas e existem diferenças entre versões que possuem praticamente o mesmo título e datas semelhantes.

É justamente aqui que nasce a polêmica.

Ainda não existe uma documentação pública completa mostrando:

quando exatamente a primeira versão foi gerada;

qual ferramenta de IA produziu cada elemento;

qual foi o prompt utilizado;

quanto Bernadett modificou depois da geração;

quando HUGEL tomou conhecimento da música;

e qual foi exatamente o caminho entre aquela experiência e a gravação que chegou às pistas.

Por isso, dizer simplesmente “uma IA criou Movin’ To The Sun” é uma conclusão rápida demais.

MAS TALVEZ ESTEJA AÍ A GRANDE HISTÓRIA

Durante anos a indústria musical discutiu se a inteligência artificial conseguiria substituir compositores, produtores ou cantores.

“Movin’ To The Sun” apresenta um cenário bem diferente.

A IA não necessariamente substituiu ninguém.

Ela pode ter sido apenas o começo da cadeia.

Uma mulher que trabalhava com Reiki teve uma ideia.

Usou uma tecnologia que até pouco tempo atrás nem existia.

Aquela experiência produziu algo musicalmente interessante.

Alguém percebeu potencial naquela ideia.

Um produtor profissional reconstruiu o material.

Outros compositores trabalharam sobre ele.

E uma cantora consagrada entrou em um estúdio e interpretou a música.

No final, o que começou possivelmente como uma experiência doméstica terminou dentro da indústria fonográfica tradicional.

E existe um detalhe quase cinematográfico nisso tudo.

Poucos meses antes, Bernadett Gango estava oferecendo sessões de Reiki em Felixstowe, na Inglaterra.

Agora seu nome aparece ao lado de HUGEL e Ultra Naté nos créditos de um hit internacional.

“Movin’ To The Sun” não é simplesmente a história do primeiro grande sucesso feito por inteligência artificial.

É a história de uma pessoa que não pertencia à indústria musical e conseguiu entrar nela porque, pela primeira vez, a tecnologia diminuiu brutalmente a distância entre ter uma ideia e conseguir transformá-la em uma música.

E se esse modelo se repetir, a maior transformação provocada pela inteligência artificial na música não seja substituir os artistas.

Pode ser permitir que apareçam artistas que, até ontem, nunca teriam conseguido chegar até um estúdio.


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